Mudança:
Preparar para Mudança,
Preparar Mesmo?
Por : Francisco Bittencourt
" Não
existem revoluções
sutis, nem processos de
mudanças indolores".
(Nicholas Negromonte)
Seguramente determinadas organizações, quando decidem
empreender processos de mudança, gostariam de ter a sua disposição
uma espécie de "spa", por meio do qual, num fim de
semana, em regime intensivo, todas as mudanças, reduções,
desaparecimentos burocráticos se auto implementassem, mediante
alguns exercícios, exorcizações, as destruições
de mitos institucionais internos se consolidassem.
Na segunda-feira todos estariam de volta, num novo ambiente, com nova
estrutura, enfim, com todos os males erradicados, e todas as alterações
implementadas, sem resistências, ou com resistências administráveis.
A realidade, entretanto, nos traz outras verdades. Segundo Weber, a
burocracia existe para facilitar e racionalizar a vida das empresas,
mas o homem, ah! o homem ... este ser pensante, exigente, imprevisível,
ele muda tudo, altera tudo, não está satisfeito nunca,
e aí ...
As mudanças devem ser implementadas, vivemos numa dinâmica
em que o obsoleto de hoje, foi o contemporâneo de agora a pouco,
e para que as adequações se façam de forma sensata,
há que se pensar na necessidade de internalizar as alterações,
entendê-las, contribuir para seu aperfeiçoamento e mais
do que nunca, sinérgico, onde a contribuição individual
seja compatível com o nível de resposta esperada pelo
sistema, sem danificar as individualidades, a dignidade, o equilíbrio
coletivo.
A capacidade de contribuição dos homens para seus próprios
sistemas de mudança é limitada, embora limitada seja
sua operacionalização, na medida em que precisa dispor
de recursos e instrumentos capazes de sua viabilização.
É fundamental, portanto, que antes de iniciarmos o estabelecimento dos
níveis de exigência para que os processos de mudança se concretizam,
percebamos se disponibilizamos de forma adequada e objetiva os mecanismos que
permitirão aos principais agentes transformadores responder as expectativas
geradas institucionalmente.
Não será suficiente, porém, indicar recursos e
instrumentos para a geração das alternativas desejadas.
Mais do que isso, é preciso verificar como é que esses
agentes transformadores se sentem frente as propostas de modificação
do sistema no qual estão inseridos.
De que forma reagirão as novas provocações; de
que maneira os conflitos internos, que não serão poucos,
serão explicitados? Como compatibilizar o gerenciamento dos
novos recursos e instrumentos, com a necessidade imediata e nunca interrompida
de gerar resultados? Afinal de contas, mudanças tem um investimento,
um custo, um preço. O sistema muda, mas não pode parar,
deve continuar girando, pois a sua sobrevivência depende de sua
capacidade geradora de resultados, de sua rentabilidade, de sua produtividade.
Não podemos nos esquecer do fato de que se houve processo de
mudança, houve fatores que levaram a isto, envolvendo competitividade,
envolvendo contemporaneidade de processos e produtos, enfim, envolvendo
cobranças múltiplas.
Sabe-se que os processos de mudanças a partir do homem, começam
com a percepção da necessidade de mudar, seguida, a curto
prazo, da mudança de atitudes, a médio prazo, da mudança
de comportamento e só então, a longo prazo, da influência
aos demais componentes do sistema da necessidade de mudar.
Entendemos que estes programas de mudança organizacional devem
ser, a partir das decisões estratégicas, iniciados em
relação aos agentes transformadores - os homens, com
uma internalização de suas novas responsabilidades, com
o redesenho dos perfis desejados, mas com uma linguagem direta, que
fale de forma inteligível, ao meio de atuação
do homem.
Trata-se de uma importante etapa, esta em que o agente transformador
identifica, na sua dimensão contributiva, qual a alternativa
que deve ser implementada, de forma a que os processos de mudança
sejam traduzidos para a sua realidade.
Apoiá-los no sentido de trabalhar os conflitos internos, interpessoais,
com a organização, consigo, e com isso, impedir que estes
conflitos, perfeitamente admissíveis no contexto humano, tornem-se
obstáculos a realização de processos de evolução
institucional.
Além de lhes dar um apoio neste sentido, assume ares de prioridade,
a identificação dos níveis de contribuição
dentro da ótica desejada pela nova realidade a ser vivida.
Não se trata de um simples subsistema de adaptação,
ou de adequação a uma nova realidade, mas tão
somente de fazê-lo enxergar, da maneira mais objetiva possível,
quais são as cores reinantes, que mecanismos acionar, quais
as alternativas de resultado, enfim, o que está valendo agora.
Na medida em que o homem entende o seu ambiente, na medida em que ele
percebe os sinais que estão valendo, na medida em que identifica
seu novo horizonte, ele reavalia sua capacidade de contribuição,
redimensiona sua força, reescreve seu manual de operações
individual, nem sempre explicitado, mas sempre muito bem compreendido
por si próprio.
Deixá-lo na dúvida significa comprometer o processo de
mudança como um todo, pois provavelmente vai operacionalizar
os mecanismos sem entedê-los e, consequentemente, reduzir de
maneira significativa sua contribuição para um provável
aperfeiçoamento do sistema, no futuro.
Se tivéssemos que estabelecer uma seqüência provocadora
de reações objetivas neste processo de mudanças
organizacionais, tendo como foco o agente transformador, o homem, indicaríamos:
a) explicitar, de forma a mais clara possível qual o objetivo
do processo de mudança, qual a sua forma, os seus impactos,
suas conseqüências;
b) trabalhar os conflitos internos e reavaliá-los, a partir
da nova ótica;
c) redesenhar o conjunto de responsabilidades e contribuições
dos agentes transformadores, traduzindo-as para a realidade a ser vivida;
d) desenvolver, mediante programas de aperfeiçoamento específicos,
os agentes transformadores na operacionalização e administração
dos mecanismos exigidos pela nova realidade;
e) estabelecer, em conjunto com estes mesmos agentes transformadores,
subsistemas de acompanhamento, de forma a ser desenvolvido um processo
de autoavaliação de resultados, frente as mudanças.
O importante é que não se permita, de forma alguma, que
ansiedade e expectativas dominem o ambiente, e com isso, comprometa-se
todo o processo de mudança. A afirmativa feita no início
deste artigo adverte para as conseqüências do processo de
mudança.
Os agentes transformadores, ao perceberem que as mudanças são
inevitáveis, serão capazes de contribuir efetivamente
para a sua consolidação se obtiverem resposta a todas
as suas dúvidas, se identificarem alternativas às suas
inseguranças, se sentirem nas mudanças perspectivas de
recompensa (em seu sentido mais amplo).
Organizações, mudam para crescer (qualitativamente),
mudam para melhorar seus subsistemas internos, mudam para alterar resultados
e processos superados. É justo que, para os agentes da transformação
interna, esta linguagem de mudança, em geral transmitida em
linguagem de gerencia - RESULTADO, OBJETIVO E LUCRO, seja percebida
em linguagem de estimulação - OPORTUNIDADE, RECONHECIMENTO
E PARTICIPAÇÃO.